Somos o Centro Acadêmico Ana Maria Primavesi (CAAMP), do bacharelado em Agroecologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), situados na cidade de Araras – São Paulo. Viemos por meio desta carta aberta, compartilhar algumas reflexões acerca da educação superior específica em Agroecologia e suas implicações – referentes ao perfil profissional que está sendo formado (agroecólogas e agroecólogos); aos caminhos possíveis para a inserção profissional destes; também quanto à coerência ou não destes cursos frente à construção histórica do movimento agroecológico e tudo o que a Agroecologia representa.

Quando se fala em Agroecologia no Brasil há de se ter clara a história do país. Somos filhos de uma colonização escravagista e latifundiária, que até hoje deixa muitas sequelas. Porém, desde sempre, muitas vozes se levantaram contra as atrocidades deste processo desenvolvimentista e são essas vozes que constroem hoje a Agroecologia. Portanto, devemos ser muito cuidadosos, pois há muitos interesses políticos e econômicos que tentam se apropriar da Agroecologia, distorcendo e desconstruindo este movimento – que é muito mais que um curso, uma profissão ou uma propaganda sustentável do agronegócio.

No Brasil, assim como nos outros países da América Latina, esta ciência tem um laço estreito com os movimentos sociais campesinos na busca por uma sociedade mais justa e solidária, onde os direitos humanos e ambientais – frente à perversidade da globalização capitalista – sejam mais importantes do que o lucro de poucos e a geração ilusória de ‘divisas’.

Entendemos que assim como a ciência, a educação não é neutra. Com isso, sabemos que as universidades e demais instituições de ensino são palco de disputa política, seja declaradamente, sutilmente ou até  inconscientemente nas relações que se constroem nos diferentes espaços do dia-a-dia de uma universidade.

Nesta complexidade os cursos de Agroecologia já são uma realidade, portanto muitas questões ainda precisam ser amplamente refletidas para que esta conquista realmente contribua para a construção de uma sociedade baseada na agroecologia e não seja um revés para o movimento agroecológico como um todo, cedendo para o conservadorismo institucional e para interesses distorcidos que se apoiam no discurso da transição agroecológica. De maneira alguma estamos afirmando que não exista o processo de transição agroecológica, apenas questionamos aqueles que desenvolvem o conteúdo de suas disciplinas ou de suas pesquisas baseados ainda nos venenos e fertilizantes químicos. Acreditamos em aulas e pesquisas realmente agroecológicas, que ousem quebrar paradigmas e que contribuam efetivamente na transformação da realidade socioambiental e para uma formação coerente dos discentes destes cursos.

Está em tramitação, um projeto de lei (Anexo I) de um senador que representa interesses neoliberais (Cassio Cunha Lima, PSDB-PB), ficha suja e que propõe a regulamentação profissional das agroecólogas/agroecólogos. Isto sem ampla consulta com as experiências reais, o que representa um retrocesso no processo de construção democrática, e fere um dos principais pressupostos e pilares centrais da agroecologia, a diversidade, que historicamente se expressa na inter-relação entre movimentos sociais do campo, da sociedade civil, instituições estatais, e profissionais das mais variadas áreas do conhecimento.

Abaixo levantamos algumas questões, das quais não pretendemos aqui achar respostas e sim contribuir para o debate acerca da construção destes cursos. Partimos do princípio de que todos os envolvidos em um projeto pedagógico (sejam docentes, discentes, técnicos ou sociedade) são, antes de qualquer rótulo social, seres humanos.

Segue:

“Como, porque e para que(m) surgem os cursos de Agroecologia?”;

“Qual o perfil dos e das estudantes que procuram este curso?”;

“Qual o perfil dos professores e professoras que são contratados nestes cursos?”;

“Qual a aproximação dos cursos com as realidades locais?”;

“Temos as mesmas atribuições técnicas que os agrônomos?”;

“Como as organizações e movimentos sociais que constroem a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), assim como a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), contribuem ou podem contribuir na construção dos cursos e no debate político ao entorno destes?”;

“CREA, por que não?”;

“O que é uma pesquisa agroecológica e a indissociabilidade no ensino, pesquisa e extensão?”;…

Tantas outras questões podem e devem surgir. Nesse sentido, para começar a superá-las, faz-se necessário um amplo espaço, que reúna toda a diversidade de atores que estão envolvidos com estes projetos pedagógicos – docentes e discentes de todos os cursos do Brasil, assim como representantes dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil. Um encontro que proporcione espaços para um debate mais aprofundado, onde os diferentes pontos de vista possam ser compartilhados, assim como as diferentes realidades dos territórios em que se encontram os cursos de Agroecologia no Brasil.

Quanto a nós, estudantes, seria uma ótima oportunidade para articularmos uma organização a nível nacional dos estudantes de Agroecologia – algo que sempre aparece em nossas ‘reuniões relâmpago’ nos encontros e congressos que já nos encontramos.

Por fim, tendo ciência da urgência destes diálogos coletivos, fica o convite para construirmos juntos este ‘I Encontro dos Cursos de Agroecologia’, de forma coletiva e criativa – docentes, discentes, movimentos sociais, entidades públicas e organizações da sociedade civil, nas diferentes esferas de atuação. Dispomo-nos, se for o caso, a sediar este encontro aqui em Araras-SP e estamos abertos a esta construção coletiva.

Nossos contatos:

E-mail – caampcca@gmail.com e Facebook – Centro Acadêmico Ana Maria Primavesi.

Os desafios e potencialidades estão postos e os cursos de Agroecologia pouco a pouco vão se construindo – as contradições propulsionando a vida.

Há de se cultivar com muito carinho os solos que acolhem estas sementes.

Atenciosamente, Centro Acadêmico Ana Maria Primavesi.

Araras, dia 05 de novembro de 2015.

Anexo I:

Endereço on-line para acesso ao projeto de lei do senador Cássio Cunha, e para consulta popular quanto à proposta: http://www12.senado.gov.br/ecidadania/visualizacaotexto?id=173648

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