CARTA ABERTA DO VII ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA

Chegamos na terra de Belo Monte e Eldorado dos Carajás – localidade onde ocorreu o massacre à camponesxs, que anualmente lembramos e lutamos no dia 17 de Abril, o Dia Internacional da Luta Camponesa. Terra de tantas Marias e Joãos historicamente submetidxs, marginalizadxs e chacinadxs. Amazônia, última fronteira ao avanço Civilizatório/Patriarcal e Capitalista que subjugam, dominam, matam e exploram. A lógica da usurpação – mineração e agronegócio, extração de matéria-prima e exploração dos saberes e a mão-de-obra local, os infindos e exaustivos ciclos de miséria e escassez generalizada. Fundamentos políticos nefastos que se impõem historicamente a ferro e fogo e que se arrastam há milênios com sua mentalidade hierárquica – proprietária/patrimonial classista restritivas. Estes são alguns esboços dos desafios que se colocam para a atuação e articulação no amplo território paraense (e amazônico), que todavia apresentam problemáticas em comum com as lutas travadas em outras territorialidades.

Semear a liberdade, autogerir, assumir a responsabilidade coletiva, questionar e desconstruir paradigmas e arregaçar as mangas para construir um todo que acolha, respeite e aprenda com a diversidade. Refletir, re-significar o olhar acerca de como as coisas podem ser nesse mundo, perceber nossos padrões, escolher e re-existir. O ENGA é um encontro construído pela Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil – REGA Brasil, uma rede que nasce de pessoas e grupos que praticam a Agroecologia e, a partir de uma tomada de consciência, percebem que se ver nx outrx pode fazer a diferença para forjar o mundo que acreditam, fortalecendo assim a construção desse movimento de transformação. O processo de construção do evento, bem como a dinâmica da rede, é uma forma da REGA materializar seus objetivos, de incentivar a emancipação e a autonomia do ser humano de qualquer forma de dominação e opressão que os tabus alimentados milenarmente pelo Patriarcado, que modernamente se manifesta via Sistema Capitalista, têm exercido na sociedade.

A partir da dedicação em estabelecer um diálogo mais próximo com as comunidades locais afim de compreender e dar visibilidade a suas principais pautas, foi com muita gratidão que recebemos em nossa geodésica de bambu, construída dentro do Hangar, o Territorio das Juventudes e espaço do ENGA junto ao IX CBA, sentadxs em roda, olhando olho no olho, representantes dessas comunidades para debater Territórios e Territorialidades, Gênero e Feminismo e Racismo Religioso. Os diálogos foram realizados com as lideranças de povos da floresta, erveiras, mulheres empoderadas, feirantes, movimento negro e agricultoras da reforma agrária baseando-se nas principais demandas e conflitos destxs agentes locais.

É evidente a percepção desses agentes quanto às limitações na relação com o Estado, fazendo com que priorizem a ação direta através da auto-organização coletiva. Percebe-se uma tendência de radicalização na luta através de estratégias mais combativas na defesa dos bens comuns socioambientais sendo que a luta institucional aparece como uma ferramenta complementar na conquista de suas pautas.

Reconheceu-se a necessidade do enfrentamento ao machismo dentro dos movimentos sociais e dificuldades com os próprios companheiros de luta, incluindo a violência doméstica em diversos níveis.

Apesar da alegria e do brilho dos nossos olhos o tempo é de profunda tristeza. Os povos originários do Brasil não só estão – propositalmente – esquecidos, mas são massacrados. Precisamos discutir e pensar em estratégias imediatas para garantir a sobrevivência dos povos que visceralmente fazem agroecologia, como por exemplo os Guarani-Kaiowa, que com seu sangue tem resistido em defesa da Mãe Terra. Sim, a força dos povos originários está aqui presente, mas muito ainda temos que avançar, enquanto Movimento Agroecológico, na aproximação com as questões indígenas, que ainda são muito incipientes. As diferentes comunidades tradicionais do Brasil são destruidas pelas estratégias empresariais que as colocam como meros refugos dos recursos naturais, sem consciência e direitos. Denunciamos aqui a perpetuação do projeto fundamentalista cristão repaginado hoje nas igrejas pentecostais, braço ideológico do neoliberalismo, que devasta e demoniza nossas raízes culturais. Exemplificamos os ataques sistemáticos e a desterritorialização dos Povos de Terreiros, Povos Amazônicos, Quilombolas, Quebradeiras de Coco Babaçu, Caiçaras, Ribeirinhos e Extrativistas que, sim, são invisibilizados enquanto atorxs que enraízam, cultivam e criam em sintonia com a Mãe Terra. Enfatizamos a importância de uma mais maior presença Indígena, dos Povos da Floresta, dos Povos dos Maretorios*, Povos de Terreiro, Movimento Negro, Erveiras, Camponesxs, entre outras identidades, nos espaços acadêmicos e técnico-científicos como o CBA e nos de construção das políticas agroecológicas, pois sem estas vozes não podemos dizer que estamos edificando a Agroecologia. É necessário que pensemos, discutamos e, principalmente, executemos estratégias imediatas para garantir os direitos territoriais, a soberania alimentar e a diversidade étnico-cultural desses povos.

Não haverá Agroecologia sem que reconheçamos nossas raízes e ouçamos as vozes de quem sempre a viveu cotidianamente.

Celebramos os avanços metodológicos do CBA, assim como mais esta construção conjunta e complementar junto ao ENGA e à REGA Brasil. Desde a realização do I ENGA em Curitiba, em 2009, a relação dos ENGAs com os CBAs, quando simultâneos, tem sido forjada conforme amadurecemos as identidades de cada um dos espaços. De forma semelhante, temos percebido avanços importantes nos CBAs, a exemplo das apresentações de trabalhos virem se consolidando como espaços mais dialógicos e plurais, bem como o próprio reconhecimento e exercício dos ENGAs enquanto espaços de (re)construção dos conhecimentos e das práticas agroecológicas, todavia ainda temos muito o que avançar para uma maior integração entre ambos os eventos, assim como entre as diferentes organizações – ABA e REGA, bem como há muito o que fazer, uma vez que os espaços, os processos e as dinâmicas pelos quais o evento tem sido realizado expressam muito sua intenção e forma, manifestando sua abertura ou não para diferentes coletividades e sua potencialidade ou limitação para reais transições agroecológicas.

Com intenção de dialogar, afinar perspectivas de atuação e de trocar experiências, diferentes setores da juventude que compõem o campo agroecológico nacional estiveram juntos em uma roda de prosa com o tema “Juventudes e Agroecologia: desafios ao protagonismo Juvenil”, um momento importante para a REGA em que buscamos aprender com as outras organizações da juventude e compartilhar nossos acúmulos organizativos, dialogando, assim, nossas perspectivas políticas. Hoje a REGA é responsável pela gestão do GT Juventudes da ABA e nessa roda de conversa pudemos dialogar a ocupação desse espaço como uma estratégia de articulação e atuação conjunta – porque somos Futuro, mas antes, e como um primeiro entendimento compartilhado, afirmamos: as Juventudes são o Presente!

No tocante às políticas públicas, defendemos os Pontos de Agroecologia como uma proposta da REGA para a democratização e descentralização da gestão da II PLANAPO, o que para nós se configura em ação de empoderamento das pessoas e coletivos informais que cotidianamente constroem a agroecologia nos mais diferentes teritórios do campo e da cidade. Com relação à nossa atuação, damos destaque às campanhas da REGA que são as principais estratégias de articulação e mobilização em rede durante todo o ano, são elas: o Maio Agroecológico, o Plante o ENGA, as Caravanas Agroecológicas, as Micorrizas, as Feiras de Trocas de Sementes Crioulas e o apoio a Campanha Permanente Contra o Uso dos Agrotóxicos e pela Vida.

Compreendemos que o convite para uma maior contribuição da REGA para a organização do CBA 2017 já expressa que a construção mais integrada de ambos os eventos é uma vontade compartilhada. Desse modo, queremos dialogar no intuito de somar forças para trabalhar na prática essas contradições e amadurecer a identidade de cada um sem interferir em nossa autonomia. Nesse contexto, firmamos aqui o convite para a Transição Agroecológica do X CBA em Brasília rumo ao bem viver.

Reunidxs também no acampamento do VII Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, no Campus da UFRA na área do grupo IARA, cerca de 400 participantes celebramos juntxs outras formas de conviver, compartilhar e se relacionar. Em nossos encontros buscamos ao máximo coerência entre nosso discurso e prática e damos ênfase em viabilizar recursos financeiros por meio do autofinanciamento. Diante do contexto desafiador que se apresentou infelizmente não conseguimos manter uma proposta praticada nos encontros da Rede que é o de nos alimentarmos da produção local e agroecológica. Nossa estratégia de superação foi então buscarmos alimentos por meio da prática do carapirá* no CEASA, reduzindo, mesmo que minimamente e de forma pontual, o desperdício. Participantes do encontro se organizaram diariamente de maneira rotativa para coletar os alimentos de madrugada e para o preparo das refeições servidas no encontro. Os produtos de higiene artesanais utilizados no espaço do acampamento foram fabricados com bases ecológicas, sendo disponibilizados sabonetes, pó dental e repelente para todxs xs participantes. Os resíduos gerados foram tratados com a utilização de banheiros secos, além da separação dos recicláveis e compostagem dos resíduos orgânicos. Vivenciamos momentos de intensas trocas, aprofundamos e partilhamos nossas reflexões, dentre elas o não acesso da juventude negra se refletindo na estrutura da REGA, onde tanto nas plenárias quanto nos espaços de discussão, a maior parte dos negros e negras presentes no espaço se encontravam figurados em fotos que ornamentavam a geodésica. Na tentativa de quebras de tabus, na expressão máxima do ser coletivo, compartilhamos espaços mistos de banho com a lua cheia. Dessexualização*** dos corpos, questionamento e desconstrução na prática de valores, moral e costumes impostos: juntxs contemplamos o eclipse lunar e intensificamos ainda mais nossos processos reflexivos e de transformação coletiva.

Por fim, temos consciência dos desafios que nos são apresentados, numa sociedade profundamente marcada pelas relações regidas por uma governança pautada na representatividade verticalizada, da qual ainda estamos dependentes e reféns. Esperamos que o encontro proporcione um espaço formativo e um laboratório e incubador para a experimenta-ação de praticas sociais e organizativas outras e que essa vivência reverbere nas pessoas e coletividades agroecológicas em suas práticas cotidianas e alavanque as mudanças que desejamos construir no mundo.

Saravá mamãe xoxota!!!

Belém do Pará, 01 de outubro de 2015
REGA Brasil (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil)

* Denominação que os comunitários de RESEX dão aos territórios marinhos

** Expressão regional para xepa ou recicle, ou seja, o aproveitamento e a re-ciclagem dos alimentos que seriam jogados fora em feiras, CEASA, mercados, etc.

*** Questionamos inclusive o conceito vigente de sexualidade que possui uma compreensão restrita meramente à reprodução, às genitálias e ao coito. Reivindicamos uma compreensão mais abrangente de sexualidade, que envolva o sistema corporal como um todo, incluindo suas pulsões, a libido e a bioenergia em interação com nossos sentimentos, emoções, afetos e as diferentes formas e âmbitos de relação social.

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